quinta-feira, 19 de abril de 2018

Sensibilidade e empatia


Hoje no trabalho tive de lidar com um cliente que me emocionou. Era uma senhora africana que transportava uma criança fisicamente limitada, que terá nascido com problemas cerebrais que lhe afectavam seriamente. Aliás, a sua presença no Reino Unido devia-se somente aos tratamentos médicos que a filha precisava receber. 

Uma menina que não dava para perceber se o era ou não. Imobilizada que estava na sua cadeira de bebé, ainda que já não fosse um. Com distrofia muscular e total incapacidade de comunicar oralmente. 

A senhora chegou e eu era a portadora de más notícias: a viagem que ela tinha programado não era possível de realizar-se, devido ao que muitas vezes acontece: as companhias enganam as pessoas. 

Mas eu sou apenas uma empregada que começou à pouco tempo na função e tenho de seguir instruções. Procurei ajudar a senhora e fui pedir informações sobre o seu caso. Um colega apenas me respondeu: "não causes problemas para ti. Diz-lhe para se dirigir para lá e ela que espere". O que para mim não fazia sentido algum. Alguma vez mandar uma pessoa esperar a chegada do que não vai chegar é fazer o teu trabalho?? A situação muito me incomodou. Junto com pessoas mais responsáveis foi-me dito que não podiam fazer nada e que ela tinha, basicamente, de "desvencilhar-se" sozinha.

Essa falta de humanidade para com alguém que, ainda por cima, já teve as "cartas da vida" tiradas com pouca sorte, desiludiu-me. Fiquei tão incomodada que nem podia mais lidar com a situação. Intencionalmente, afastei-me do local para não ter de me revoltar com a aparente falta de empatia e comecei a desejar que o final do turno chegasse o quanto antes.

Mas será que é normal no Reino Unido as pessoas não quererem envolver-se?


Conduzi a pessoa até uma outra e daí adiante afastei-me. Temia o lamento, o choro, a conversa interminável sobre infortúnios... e eu de mãos atadas. Mas devo dizer que a senhora, junto com o filho jovem e saudável que a acompanhava, tiveram uma postura em tudo diferente. Não se exaltaram, não se surpreenderam, não se exasperaram, não gritaram ou fizeram ameaças. Talvez já soubessem sobre a viagem e fingiram que não? Mas quem faria tal coisa? Enfim... Eu admirei-os porque, talvez fruto das suas lutas pessoais, coisas como estas deixam de ser tão importantes. 

E devo dizer que, diante do infortúnio deles, até a minha própria fome e a ideia de ter o frigorífico vazio sem ter ideia do que lá por, me pareceu pequena. Eu ia seguir a minha vida, passar pelo supermercado, comprar algo para comer e dormir numa cama. E assim, de forma simples, resolvia as minhas necessidades mais imediatas. Eles não.

O meu turno já tinha terminado quando me cruzo com a senhora na área restrita aos funcionários. Vinha acompanhada de alguém que nunca vi antes e de imediato perguntei como estava a situação. A funcionária - claramente de uma hierarquia acima, é que respondeu. Tinham conseguido comprar uma outra viagem para o dia seguinte, mas a pessoa (com a sua filha com necessidades especiais) tinha de ficar a dormir na gare durante a noite. Tinham reunido umas tantas garrafas com água e iam indicar-lhe os locais mais reservados e quietos onde podia alojar-se enquanto aguardava novo transporte.


No regresso já no autocarro, fiquei a pensar na situação. Aquela falta de empatia inicial, a clara falta de vontade em envolverem-se nos problemas dos outros, afinal não era bem assim. Sempre foi feito algo, não deixaram a senhora, o seu filho adolescente e a sua filha deficiente à mercê da sua própria sorte. Alguma ajuda - ainda que pouca, foi facultada. 

Será que eu devia voltar atrás? E dar à senhora algo para comer? Dinheiro? Se pudesse até lhe dava um teto para dormir. E reflecti que já era a segunda vez, em quarenta e oito horas, que esse pensamento me vinha à cabeça. 

Aqui no UK sente-se que não nos podemos envolver muito. Ainda pensei em levar-lhe comida para ter mais do que águas para se aguentar durante a noite. Pensei mesmo regressar ao emprego, após 12 horas de trabalho, só para poder ajudar. Mas quis acreditar que outros ajudariam. Com comida sólida, com o que precisasse. 

Como funcionária no local, ao me envolver pessoalmente, ainda que fora do uniforme, podia comprometer o meu emprego. Aqui não se podem correr riscos. E é considerado um risco tentar ajudar as pessoas dando-lhes, por exemplo, uma peça de fruta. Ou um pouco de sopa. Pensei nas sopas que temos na sala do pessoal, que saem de uma máquina de distribuição automática. Pensei em as oferecer à senhora. Mas depressa lembrei-me: "não porque saem quentes e se ela se queimar ou algo acontecer com a criança, pode processar o estabelecimento e eu posso ser demitida por não ter de interferir onde não sou chamada". Porque aqui no UK pensam muito assim. A vida deles, em muitos sentidos, está condicionada aos receios dos processos nos tribunais. Processo pela falta de um sinal a avisar que o piso está escorredio, ter a comida quente demais, o café a escaldar, cabelos no prato, uma maça que faz mal ao estômago e alegadamente poderá ter sido propositadamente alterada para causar mal estar, etc, etc. Por isso é que tudo é tão "deslavado" - até a empatia. 

Lembrei-me também que, às tantas, a senhora reconheceu entre os trauseuntes, o seu pastor. Que é o lider espiritual. E no regresso no autocarro fiquei a pensar para que servem estes, se ela não poderia ter recorrido ao mesmo para solicitar ajuda. 

No final do dia, realizei uma pequena oração por eles e agradeci a Deus pelas bençãos na vida que me deu.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Centros históricos de Lisboa para habitar?

Peço a vossa atenção para esta informação da CML:


Segui este link por achar fantástico estarem a facilitar a habitação nos centros históricos de Lisboa. São zonas que estão a perder habitantes de bairro a grande velocidade e no seu lugar surgem condomínios para serem vendidos ou alugados a estrangeiros. É muito triste ver uma cidade a morrer desta forma. Com vida emprestada, vida provisória, vida de comércio apenas. Sem famílias com filhos a estudar nas escolas locais. Mas com turistas e estudantes vindos de fora. 


Porém quando li esta descrição a minha felicidade caiu por terra.
A minha interpretação da mesma é que famílias e idosos são despejados das suas casas de toda a vida, para que o ganancioso proprietário possa remodelar e adaptar a mesma ao turismo. A câmara tem estas casas fraquinhas que de outro modo acabariam em ruinas e por uma módica quantia disponibilizam-nas mas apenas a pessoas que já morem no bairro e que façam parte dos infortunados. 

Então não se está na realidade a combater nenhum ciclo de desertificação, não é verdade?
Pelo contrário. Os miseráveis continuam miseráveis e provavelmente terão de pagar mais por isso. E os ricos vão virar milionários. Quanto ao centro histórico, vai perdendo as famílias e transforma-se num misto de escritórios com casas para alugar não a trabalhadores com filhos, mas a estudantes de outras partes do país e do mundo e a pessoas com um bom nível de vida que ali querem ter um espaço para esporadicamente visitar. 

sábado, 14 de abril de 2018

Funcionam como uma matilha de cães


Estou a viver há 10 dias numa terceira casa. A situação é temporária. Estava previsto assim acontecer. Irei regressar à outra noutros 10 dias. 


Mas estou aqui a engolir a seco o que aqui está a acontecer.  
A injustiça incomoda-me. A mentira também. Estou a perder a fé nas pessoas. Daqui a pouco começo a odiar. Ou então a estereotipar. Oh gente que não presta! Mas será que só há disto por todo o lado?



A casa onde estou agora a dormir é partilhada por cinco pessoas. Os restantes já se conhecem há muito tempo. Três em particular são como unha e carne. Oriundos do mesmo país, para tudo "funcionam" em trio. Jantam juntos, sobem para os quartos juntos e são todos cúmplices. Se acham com mais autoridade sobre os restantes.

São também extremamente barulhentos. No primeiro dia em que me mudei tinha de acordar às 3 da manhã e até à meia-noite ficaram debaixo do meu quarto aos gritos, a falar alto, a gargalhar, a bater com as portas dos armários, com os tachos, panelas. E o que é pior: a chamarem uns pelos outros de um andar para o outro. E a gargalhar mesmo à frente à minha porta, a conversar alto.

Dormi apenas 1h, entre eles se deitarem e eu ter de acordar.


Sendo tolerante e nova no espaço, relevei. São jovens e procuro convencer-me que, a pesar de eu ter sido diferente, esta atitude de falta de consideração pelos outros é devido à idade. E que aquilo podia ser uma situação esporádica.

Precisava também de ir à casa de banho e procurei aguentar o máximo que pude. Mas já que eles estavam acordados a gritar e não me deixavam dormir porque não paravam de berrar, abri a porta e entrei rapidamente no WC. Estava a precisar. Mas não consigo estar à vontade. Sinto-me observada. A porta não tem trinco e isso faz-me não conseguir relaxar. Alguém podia abri-la a qualquer momento e apanhar-me desprevenida - tal como tinha acontecido dias antes na outra casa. 


Decidi então sair do WC e usar a pequena no andar de baixo. Que de imediato se tornou a minha predilecta porque é pequena e posso mantê-la fechada com o pé e não ficar no mesmo andar dos quartos, o que implica um uso menos incomodativo para quem está a descansar nas divisórias.

Sou muito atenciosa para com terceiros. Sei disso.

Nisto quando abro a porta, tenho DUAS pessoas à minha frente. "Estás bem?" - perguntam em surpresa. 
Estou. E pedi licença para passar e ir ao WC.

Estava mesmo a ser observada!
Não era só impressão minha, aquelas pessoas estavam à porta do WC e podiam ter entrado. Sabiam que estava ali porque ouviram a porta a bater. E apareceram, hoje sei disto, não por estarem preocupadas comigo. Mas para me darem a entender que fui barulhenta. 

A grande lata!!

Foi a segunda vez que me faziam uma "espera" à saída do WC. E não gostei. Parece que não tenho o direito de ir ao WC sem ser controlada. Depois afastei esses pensamentos da minha mente. Se calhar eles interpretaram que podia estar a sentir-me mal, só porque saí e entrei rapidamente. Era eu que estava a fazer mau juízo deles.

Ainda assim, preferia ir ao WC quando não os soubesse por perto. Porque isto de ir ao WC e ter pessoas à saída a fazer-te uma espera não te faz sentir em "casa". E a sensação de não ter direito de usufruir do espaço como se também fosse meu foi aumentando rapidamente. Assim que entrei, sabem como fui recebida?

Ouvi o meu nome a ser mencionado quatro vezes. E por isso perguntei porque diziam meu nome. Tinham-me ouvido abrir a porta e trazer os restantes dos meus pertences. Sabiam que os ia escutar. E fizeram questão de mencionar o meu nome propositadamente. Claro, perguntei o que era. Veio um rapaz ter comigo e disse: "Entraste cá em casa de manhã? Tiraste uma encomenda minha? É que a Paula disse que viu uma encomenda lá em cima no teu quarto". 

Fiquei a pensar onde tinha vindo parar. Já me estavam a acusar de roubo! Eu só estava a transportar as minhas coisas para a casa e, pela primeira vez, ao invés de as deixar dentro do quarto e fechar a porta, achei que podia deixar um saco onde tinha posto a encomenda que tinha recebido pelo correio horas antes, à porta do mesmo. Afinal, só me faltava transportar uma coisa e daria por concluída a mudança. Não tinha ninguém a circular pela casa nessa altura. Estavam todos nos quartos.

Então que me viessem dizer, até considerar, que eu tinha pego algo que pertence a outra pessoa e posto num saco meu é... feio. Se está no meu saco, é porque é meu! A outra desceu do quarto dela, ao invés de meter-se na sua vida, não, espreitou o saco que tinha acabado de deixar ali. Se fosse outra nem mencionava o conteúdo, sabe muito bem que não se deve espreitar as coisas dos outros. Muito menos levantar um falso testemunho. 

Nesse primeiro dia estava exausta e adormeci de imediato. Mas não por muito tempo, porque eles logo começaram o «arraial» de ruído. Eu a precisar levantar-me às 3 da manhã, e eles a impedir-me de dormir com os seus gritos, barulhos e gargalhadas. 

Aconteceu nesse primeiro dia o mesmo que está a acontecer agora que escrevo: dormi apenas UMA hora. 

Depois trabalhei cinco dias seguidos e os meus turnos são de 12 horas. Significa isto que é basicamente trabalhar e dormir. DORMIR sendo a parte muito importante para aguentar o trabalho. E eles não mo estavam a permitir.

Depois quando me apanhavam pela casa, era sempre com segundas intenções. Dizer-me coisas. A primeira coisa que me perguntaram foi se fui eu que deixei a porta da rua aberta. Outra acusação. E eu sei que não tinha sido.

Não é preciso ser muito inteligente para perceber que eles todos, sendo amigos e já havendo falado entre si, estavam a apontar o dedo na minha direcção. Tal como fizeram com a encomenda.

Na segunda noite estava tão exausta do primeiro dia de trabalho que dormi bem. Lembro-me d acordar com berros bem altos, mas consegui que não me despertassem totalmente e voltei a adormecer. 

Foi a única vez em todas estas noites. Finalmente chegaram os meus dias de folga. E começaram as exigências disfarçadas de pedidos. Estavam a ser falsos, fingindo ingenuidade quando tudo estava combinado entre eles.

Mencionaram que todos davam dinheiro para comprar utensílios para a casa. Mas antes de o mencionar, espetaram um pote com dinheiro no meio da mesa da cozinha. Foi intencional. O pote não estava lá, era mantido noutro local e mudaram-na para que o pudesse ver. Não é um subterfúgio que considere digno. Se queres pedir, fala. Não se usam esses recursos vis. Logo a seguir mencionaram que cada um dava 5 libras para comprar panos da louça, panos de limpeza, detergentes vários, tira gorduras, etc, etc. Muita coisa que eu ia usar apenas numa ocasião. Respondi que fazia sentido se ficasse a viver cá mas já estava a partilhar na outra casa essas coisas e tinha comigo detergentes que me restaram da mudança e pretendia usá-los. 

Com isso excluí-me de "comparticipar" nas despesas que eles muito convenientemente iam necessitar assim que cheguei. Coincidência. Por acaso a cozinha estava cheia de panos, detergentes etc. Mas aparentemente estava na altura de comprar mais. Talvez porque eu havia chegado. Mas isto revela o carácter das pessoas. Assim que uma nova pessoa chega eles começam logo a cobrar dinheiro? Já tive o suficiente disso na outra casa e consegui cheirar à distância uma tentativa de extorsão. 

Logo a seguir foi o calendário de limpezas. Inicialmente o nome da "nova pessoa" estava no final - talvez até mesmo numa semana em que já cá não estaria a viver. Mais uma vez, nada de conversas comigo, nada de perguntas. "Queres? O que achas?" Nada. Ordens. Desci à cozinha onde o calendário é mantido na porta do frigorífico e reparei que tudo tinha sido alterado. Quem era suposto limpar a casa nos próximos dias? EU. Claaaaaaro....

Tudo bem. Procurei saber como faziam, o que era pretendido fazer e perguntei quando ia estar menos gente na casa, para poder limpá-la mais eficazmente. Esmerei-me na limpeza. Como sempre, fui vista a limpar, porque há sempre alguém na casa, há sempre alguém que está no mesmo espaço em comum que tu. 

Limpei a casa na quarta-feira. De noite, todos eles na cozinha como sempre, no falatório. Entro e tento conversar mas sinto que te respondem com aquela secura, desviam o olhar - não estão interessados em te ter ali. Então removi-me do espaço para que se sentissem à vontade para continuar o convívio a que estão acostumados. Na manhã seguinte, estou na cozinha e uma rapariga entra. Depois sai. Nisto surge um assunto urgente que tenho de tratar até ao final da tarde. Já nem me sobram 5 horas para dormir e ter de acordar novamente. Então vou para a cama. Nisto recebo uma mensagem no telemóvel, quase às 21h das noite. Relembro que tinha estado na cozinha com todos eles na noite anterior. E todos os dias vejo pelo menos dois deles. É uma mensagem a "sugerir" que compre sacos para o lixo, já que usei o "deles". E a perguntar se tinha limpo a casa, porque tenho de marcar no calendário. 

Todo o discurso foi desagradável e terem ido ao senhorio PEDIR o meu número de telemóvel para me enviarem uma mensagem destas, QUANDO eu estou em casa é... MALÉVOLO!

Eu ali, a dormir ou a tentar dormir por cima da cabeça deles, e eles a contactar o senhorio. Envolver o senhorio foi tudo menos inocente. Senti malícia no ar. E como estava certa!
Respondi nessa mesma noite. Precisava de dormir, mas não podia deixar para depois. Respondi que ela me viu nessa manhã, na noite anterior e na anterior a essa. Respondi que tinha limpo a casa e que esperava que desse para notar a diferença. E que me tinham visto a fazê-lo. Ia dar-lhe uns sacos para o lixo antes de me ir embora mas como raramente cozinho, raro foi a ocasião que despejei algo no lixo "deles". 

A resposta que obtive foi do piorio: "Se soubesse que tinhas limpo não estava a perguntar. Estava uma mancha de ketchup que não foi limpa. A paula disse-me que estava tudo cheio de pó na casa de banho. Se os outros vem ter comigo fazer queixas tenho de perguntar". 

Opá, o que me dizem disto??
É normal ser assim? Com alguém que só tentou dar-se bem, ser simpático, alguém que mal se conhece, mal entrou numa casa nova? É assim que agiam nestas circunstâncias?

Respondi de volta por mensagem: Não estava a gostar do que me escreviam, da proxima vez ia tirar fotografias do antes e depois e também queria jogar o jogo da polícia da limpeza. Porque eu esmerei-me. Tirem teias de aranha e pó negro com uma simples passagem de pano. Sei muito bem que nenhum deles é um esmero na limpeza. Não está correcto posicionarem-se como se fossem, muito menos acho correto toda a atitude. 

Vou trabalhar e quando chego a casa e abro o frigorífico noto as minhas coisas remexidas. Demoro algum tempo a notar que falta uma embalagem de queixo que havia comprado na véspera. Decido deixar uma nota a dizer que não a via. Mas olhem que procurei bastante. Sete vezes, no total. Procurei a primeira. Depois não convencida, desci à cozinha e procurei uma segunda, terceira, quarta... sete vezes. Removi todo o conteúdo da prateleira, para ter a certeza de que os meus olhos não me enganavam. Pus a mão acima do frigorífico, não fosse ter esquecido por ali. Sou muito cautelosa antes de levantar quaisquer suspeitas sobre o que seja. 

Ao contrário deles com a encomenda e a porta aberta.

Não estava ali nada. Há uma da manhã, depois deles todos se terem deitado e feito a algazarra do costume, despertando-me e impedindo-me de voltar a adormecer, desci à cozinha para preparar sandes para levar para o emprego. Coisa rápida. Procurando não usar NADA deles, sempre limpando tudo, arrumando as coisas. Ainda estou para saber se também isso lhes vai fazer espécie.

Bom, mas nisto reparo que há outra nota junto à minha: O queijo esteve o tempo todo no frigorífico. Para a próxima vez procura com mais atenção (smile).

Não respondi. Optei por ignorar.
Mas sei muito bem que a embalagem não estava nem sequer dentro daquele frigorífico. 

Fizeram aquilo de mal intencionados que são. 
E para colmatar, acrescentaram em letras garrafais, outra nota: "Não bater as portas!!!".

Era uma indirecta para mim. Somente para mim.
Esta gente que bate portas todo o tempo, que não é nenhum modelo de virtude no que respeita a respeitar os outros no departamento de ruído, teve a audácia de transformar a ÚNICA vez que a minha porta bateu, no primeiro dia que cá vim, e perpectuar esse momento como se fosse algo permanente e constante. 

O pior é que percebo claramente que estes 10 dias que me restam vão ser miseráveis. Mais artimanhas irão inventar. Nem sequer vai dar para usar a casa apenas como dormitório. Decerto não me vão facilitar a vida e será um passatempo infernizá-la. 

Funcionam como uma matilha de cães.
Só aceitam os da sua espécie e todos os outros são para destruir.


  


sexta-feira, 13 de abril de 2018

As quatro mulheres de mais idade com quem me cruzei hoje




Hoje atendi uma cliente de uma certa idade. Rosto enrugado, cabelos curtos mas ainda bem preenchidos e totalmente brancos. Vinha acompanhada de uma senhora de cabelos castanhos, com a pele do rosto lisa, excepção para umas tantas rugas de expressão. Falou-me que era o aniversário do que percebi ser uma neta. 


Então perguntei-lhe a idade da neta. Afinal falava de uma filha. Surgiu o número 55. A que a acompanhava- também filha, tinha 60. De seguida ela própria avançou a sua idade: 91 anos. Não aparentava. Porquê? Não só pelo aspecto físico, mas principalmente pelo discurso lúcido, rápido e a sua mobilidade dinâmica. Não caminhava com dificuldade, mas com soltura e ritmo. 

Quando penso em 91 anos, infelizmente associo esse número a já alguma dificuldade de mobilidade, a uma certa lentidão e falhas na memória e, também, uma certa curvatura na coluna vertebral. Garanto-lhes que não estava diante de nada disso. A senhora, inglesa, natural de Londres, perguntou-me de que país eu era originária. Respondi-lhe, o que a fez comentar:

-"Ah, vem de Portugal. Eu sei falar português." 

E não, não estou a traduzir. Respondeu-me em português e foi, também, a primeira vez que alguém a tentar falar a língua de Camões conseguiu fazê-lo de forma a entender-se na perfeição, com domínio e fluidez. Contou-me que morou alguns anos no Brasil na década de 60 e logo se despediu e seguiu caminho. 

Deduzi que aquela não era uma mulher comum. Não só pela genética que brevemente discutimos (aparentar muito menos idade parecia correr nos genes) mas pelo discurso. Perguntei-lhe se era viajada, respondeu que sim. Um sim que soou a contenção. Ser «viajada» talvez fosse uma forma simples que omitia uma experiência mais complexa - disse-me a intuição. Atribuí a sua admirável desenvoltura física e psicológica a essa condição de vida. Quem viaja, enriquece-se. No espírito e na mente. A mente não cai numa rotina imberbe, está a ser estimulada. Notei que era inteligente e culta. Ao dizer-me que morou alguns anos no Brasil deduzi - não sei porquê - que teria sido por motivos políticos, como por exemplo, ter um marido consul. Ela própria deve ter sido uma mulher de carreira e muito instruída, tendo circulado no meio de pessoas influentes e instruídas nas mais diferentes matérias. Notei, no tom empregue ao mencionar que viveu no Brasil, nova contenção. 

Simpatizei com a senhora e aprendi novamente uma velha lição: Na vida tudo é possível

Não há normas. Há estatísticas, generalidades, é certo, mas também há excepções. E estas podem deixar de as ser para se transformarem na norma. O seu português, ainda que aprendido no Brasil, não tinha sotaque nem me pareceu ser conjugado ao estilo brasileiro que hoje conhecemos. O português da década de 60 em terras de vera cruz devia ser bem mais formal do que nos dias de hoje.


As restantes três senhoras marcaram-me menos, mas também me recordo delas no final do dia. Todas com cabelo branco.

A primeira aguardava pelo marido, que tinha ficado para trás devido a uma enorme dificuldade de locomoção. Disse-me que tinha solicitado ajuda para deslocação mas que não lha tinham facultado. Fiquei tão preocupada que fiz questão de verificar que acabaria por a receber. Sem que percebesse a minha presença, confirmei que a ajuda que necessitava ia ser prestada. 

Neste país de scooters para andar no supermercado às compras, para andar na rua, para tudo e mais alguma coisa, por vezes em certas circunstâncias não facultam uma deslocação fácil a idosos com mobilidade reduzida. Nem se preocupam. E aquilo incomodou-me. Para todos os que conseguem andar, uns meros metros podem parecer coisa fácil. Quando avistei o senhor, com os bofes para fora, receei que lhe desse um piripaque no coração ali mesmo. Não foi nada fácil para ele caminhar "alguns metros" e a preocupação da esposa com a sua condição era justificada. 

 A segunda idosa falou um pouco comigo. Aguardava o filho que tinha ido comprar algo e pediu para que ela esperasse por ele num certo local. Mas ela, sabendo onde ele tinha ido, decidiu ir atrás e parou a meio caminho, onde eu estava. Falou um pouco disto e mencionou que o filho tinha ido visitá-la porque dentro de dois dias ia ser submetida a uma intervenção cirúrgica. Desejei-lhe boa sorte. Mas o que me veio à mente foi a possibilidade de dentro de dois dias aquela senhora sorridente e toda a sua energia podia estar destinada a apagar-se. Vida por mais dois dias, o filho tinha vindo visitá-la pela última vez, talvez um pouco contrariado. Um pensamento um tanto mórbido, talvez, mas intuí solidão, algum receio, amor, saudade, felicidade, desejo de ter o filho mais perto e mais presente e pouca paciência na comunicação entre mãe e filho. Continuei a trabalhar e perdi-lhe o rasto, não vi para onde foi nem se o filho, que nunca mais aparecia, surgiu e ficou mais um pouco com a mãe.

A terceira idosa esperava a neta. De início só percebi que esperava alguém e que tinham marcado um encontro por ali. Como não estavam a conseguir entender-se por telemóvel uma com a outra, a senhora pediu-me para explicar por chamada onde ela se encontrava, para a neta a localizar. Foi o que fiz. O sentido de orientação da neta não era dos melhores e acho que o receio de não encontrar a avó atrapalhou-a. Então pedi-lhe que voltasse a contactar a neta e foi então que as duas encontraram-se. Estavam a poucos metros uma da outra, mas cada qual a aguardar em sítios diferentes. Foi a idosa que partiu ao encontro da neta, ao perceber onde esta se encontrava. Uma senhora totalmente lúcida, amável, doce, com facilidade de deslocação. Ainda assim confirmei que se encontravam de facto. Ao me perceber perto, a neta agradeceu com umas vénias e eu regressei ao meu posto contente, por ninguém ter-se perdido e por perceber a felicidade naquele abraço que as duas deram. 


#idadenãotemlimites


sábado, 31 de março de 2018

Tenho boas novidades!


Tenho boas notícias.

Mudei de casa e comecei num novo emprego.
Tudo isto aconteceu de um momento para o outro, mas posso dizer que acho que teve dedo do destino. Quem me segue no blogue teve de suportar muitos desabafos sobre a minha então situação doméstica. Problemas, receios, conflictos.

Pois agora deixem-me partilhar as alegrias.

Gosto imenso da casa que encontrei. E mais ainda das pessoas que cá estão a viver. É como sair da escuridão para a luz. Uma situação que eu não estava bem a ver, enfiada que estava naquele buraco. 

Agora estou a viver numa casa ampla, com pessoas decentes, simpáticas e prestativas. Tenho um jardim muito jeitoso que convida a relaxar quando o sol e o calor derem ares da sua graça. Mas mesmo a chuva não me impediu de, por exemplo, começar o dia de hoje a beber um chá quente e um bolinho, sentada na mesa do jardim. 

Entrei numa casa limpa, cheirosa, perfumada, arrumada. O oposto da anterior. E sinto que, pela primeira vez, a casa "cuida" de mim, ao invés de ser eu que tenho de cuidar da casa. Aqui cada um limpa atrás de si - não digo que sempre mas existe esse cuidado. O chão em parquet, limpo. Os sofás em pele, modernos com divisórias para colocar copos e revistas. Um televisor com vários canais e uma internet com uma conecção decente, um pouco melhor que a anterior. O senhorio é impecável, tem as suas manias, mas entendo o seu papel. Gosta de arranjar a casa e pessoalmente sinto-me grata por isso. É uma mudança refrescante, até nesse sentido. Têm sido só vantagens. Até começo a recear que me tirem estas alegrias, tão acostumada que estou a viver longamente em desgraças.


Das trevas para o sol


Que seja para sempre.

domingo, 25 de março de 2018

Comunicação visual e a mensagem

Gosto bastante destes símbolos que dizem tudo de forma simplista.

A minha ideia de há uns anos é criar um blogue ilustrando cada temática somente com eles.
Mas não há tempo para tudo :)



Adivinham o tema abordado em cada um deles?

 1

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5

sexta-feira, 23 de março de 2018

Sr Extraterrestre


Encontrei por acaso na internet o fado «sr. extraterrestre». Ainda não o conhecia e fiquei surpresa com isso e com o facto da sua autoria remeter para o Carlos Paião e a interpretação da Amália.

Gosto bastante desta animação gráfica, por si só conta a história toda. Mas, pela primeira vez prefiro largamente a versão da Amália.

Deixo-vos as duas!
Enjoy.




O fado que carregamos na alma...
Esse fado que ameaça apagar o sorriso que mostramos
Que assombra a felicidade
Que nos define como povo de um jardim à beira mar plantado


terça-feira, 20 de março de 2018

Guardada no baú

... estava esta fotografia.

Título:
ROUBAR A CENA



As crianças são sempre adoráveis mas vamos ser verdadeiros:
Ninguém lhe está a prestar atenção alguma! 


Porque será?
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Entretanto o tempo abriu um pouco. A neve derreteu e saí à rua. Parece de propósito. Mal sai, o sol apareceu, como que para me fazer companhia. É assim quase sempre. É bom saber que transporto o sol e não uma nuvem escura e chuvosa. Nada contra o tempo do inverno. Mas simbolicamente falando, claro.